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Istambul, capital de três impérios


CHEGUEI A MEIO DA TARDE. Depois de me instalar no hotel, saí à rua e a sensação inicial que tive foi de anarquia. Encontrava-me pela primeira vez em solo turco, a poucos quilómetros e mais um canal de distância da fronteira com a Ásia, em pleno coração do bairro histórico, numa das avenidas principais da cidade outrora conhecida por Constantinopla.

Um elétrico de aparência moderna com publicidade a um filme de super-heróis aplicada em ambas as laterais passou por mim. Rivalizava com as filas de automóveis que avançavam devagar sobre o alcatrão. E os condutores desviavam-se, cheios de paciência, das pessoas que se lhes iam atravessando à frente. Primeira lição a aprender quando se chega a Istambul: os peões não utilizam as passadeiras.

Com um guia da cidade seguro numa mão e o mapa aberto na outra, ainda a tentar orientar-me, rapidamente percebi qual era a segunda: aprender a desviarmo-nos dos carrinhos que andam sobre os passeios.

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Providencialmente puxado de repente, lá saí da frente de um senhor que caminhava apressado sobre a calçada enquanto empurrava um carro-de-mão carregado de caixas de aspeto pesado. Os turcos são comerciantes natos e, para aquele em particular, o tempo urgia, tal como para todos os outros que se cruzavam comigo. A noite caía sobre a cidade, vestindo-a de luz e cor, mas o ritmo não abrandava. Uma pequena multidão de homens caminhava ao longo das ruas, acompanhados pelas respetivas esposas, que os seguiam de braço dado. Apesar de as mulheres não terem um código de vestuário obrigatório na Turquia, eram visíveis vários graus de hijab, desde o cabelo descoberto ao mero lenço na cabeça, passando até pela sua forma mais radical — a burca.

Esta atmosfera fervilhante com que me deparei foi sublimada pelo segundo dia que passei na cidade. Começou pela indispensável ida até ao Grande Bazar.

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É necessário algum cuidado quando entramos no bazar coberto, o outro nome pelo qual este centro comercial — considerado o mais antigo do mundo — também é conhecido, já que o risco de nos perdermos é significativo. Portanto, aconselho alguma prudência. Nem tudo tem de ser visto num dia e a melhor forma de desfrutarmos em pleno da experiência que proporciona é fazê-lo aos poucos, algumas zonas de cada vez. O complexo é enorme. Artérias de largura variada interligam-se através de padrões labirínticos, disponibilizando uma oferta que pode ser descrita como grandiosa. Há mesquitas, fontes,
hamans, cafés e, sobretudo, muitas lojas. Estão organizadas por áreas, desde ourivesaria, tapeçaria, peles ou simplesmente recordações. Mas cautela com os preços. São meramente indicativos, a base a partir da qual tudo começa. A mim, bastou-me simplesmente franzir o sobrolho para adquirir um amuleto contra o mau-olhado por metade do valor.

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O passado imperial da cidade pode ser testemunhado em toda a sua plenitude através de uma simples visita à Basílica de Santa Sofia. A antiga catedral ortodoxa, mais tarde adaptada numa mesquita, foi secularizada e atualmente funciona como um museu. Istambul foi fundada no século VII a.C. pela civilização grega, que a batizou de Bizâncio. Tornou-se posteriormente parte integrante da província romana da Ásia menor, mas foi já durante o século IV d.C. que o imperador Constantino resolveu mudar-lhe o nome — deu-lhe o seu.

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Constantinopla caiu às mãos do sultão Mehmet onze séculos depois, após resistir a sete semanas de cerco. Iniciou-se assim o terceiro período imperial e o domínio otomano, que ainda hoje perdura (apesar de o Estado turco ser oficialmente laico). Com ele, a cidade rapidamente atingiu o apogeu. Solimão, o Magnífico, estendeu o império desde o Cairo, no Egito, até Budapeste e transformou-a na metrópole mais poderosa do mundo.


Esta diversidade teve repercussões óbvias na estrutura arquitetónica dos principais monumentos e
AyaSofya não é uma exceção, mas o maior exemplo disso mesmo. A nave central, revestida a mármore pórfiro, negro e dourado, suportada por pilares colossais, demonstra bem toda a sofisticação que ainda hoje é reconhecida ao antigo império Bizantino. A história conta que Justiniano, o imperador que a mandou construir, exclamou, extasiado, ao lá entrar pela primeira vez: «Oh, Salomão, eu ultrapassei-te!». Referia-se ao rei israelita cuja opulência do templo em que habitava é célebre.

Mas quando lá entramos, muito mais nos prende a atenção, desde as cúpulas e os medalhões com inscrições do Alcorão, ao Olho de Maria — um orifício embutido numa coluna de marfim que tem a fama de possuir poderes curativos. E há ainda o
Deesis, um mosaico cristão em que São João Batista e a Virgem Maria imploram a Jesus pela salvação da humanidade, ou a representação da Virgem com o Menino sentado no colo mesmo por cima do mihrab (que indica a direção de Meca e, como tal, serviu de orientação às orações durante os séculos em que funcionou como mesquita). Não há melhor exemplo de uma coabitação pacífica entre dois credos que muitos vêm desnecessariamente como antagónicos.

O meio da tarde decorreu debaixo de terra. Sim, a cisterna de Istambul fica mesmo ao lado da basílica. Foi construída com o propósito de garantir o abastecimento de água durante os vários cercos que compõem o passado da cidade e nela podem ser vistas mais de 300 colunas romanas dispostas em padrões geométricos perfeitos, além de peixes e até uma escultura da cabeça de Medusa. A atmosfera feérica e intimista que proporciona faz com que, por vezes, seja utilizada como sala de concertos. Se estiver interessado, procure na agenda cultural e não hesite: marque a viagem!

Mas não se distraia com as horas. A espreitar o relógio, voltei a pegar no mapa, saí da cisterna e pus-me a caminho. Um espetáculo ainda mais deslumbrante aguardava por mim.

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A primeira coisa em que reparamos quando chegamos ao cais de Eminönü, é no aroma quente a cavalas grelhadas que nos sobe pelo nariz acima. Provém das bancas de rua que se encontram junto à água, mesmo ao pé da Ponte de Galáta, a travessia que cruza o Corno Dourado, o belíssimo porto natural que entra por Istambul adentro e separa os dois bairros trácios da cidade — o antigo ou histórico, e o moderno, Beyoğlu. Depois vem tudo o resto. Os ferries marítimos que circulam sem parar; as canas dos pescadores pousadas sobre a ponte; a Torre de Galáta que se vê ao fundo; o Bósforo que sobe até ao Mar Negro; a Ásia que adormece em silêncio do outro lado; o chamamento da oração que ecoa pela cidade; e o sol que se põe sobre ela, enchendo-a de sombras, pintando o Mar de Marmára de dourado, como um quadro renascentista ilustrado a aguarelas.

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O terceiro dia de viagem começou com uma visita à famosa Mesquita Azul. Tive alguma dificuldade em encontrar a entrada (é necessário aceder ao complexo, passar o pátio e contornar o edifício, chegando assim à lateral), se bem que o esforço tenha sido mais tarde recompensado. O índigo domina no interior (daí a alcunha), onde 20 000 azulejos pintados à mão com ciprestes, frutos e flores revestem as paredes e galerias. Mas a sua característica mais singular reside no exterior, isto é, no número de minaretes — seis. Uma afronta que se tornou polémica aquando da sua construção, já que igualou os existentes na Mesquita da Kaaba, em Meca. O sultão Amhed, o seu fundador, resolveu o problema ordenando que fosse adicionado mais um à da Arábia Saudita.

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Se é difícil resistir ao encantamento exótico da cidade, que dizer da paisagem marítima que a envolve? E lá reuni coragem para entrar num barco (tenho algum medo, confesso) e fazer um pequeno cruzeiro pelo Bósforo. Há para todos os gostos e bolsos, se bem que aconselho uma das opções comercializadas pelas agências de viagens. Os funcionários falam algum inglês e deste modo não será enganado. Depois, desfrute da vista e ainda mais do passeio. Há palácios junto às margens do canal, a Ásia mesmo ali e até golfinhos. Se o céu se encontrar agradável, poderá tornar-se num momento inesquecível.

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O resto do dia foi passado no bairro moderno do lado europeu de Istambul — Beyoğlu. Aí, não há muitos monumentos para visitar (à exceção da Torre de Galáta, claro), mas imenso para ver e comprar, se estiver na disponibilidade de tal. Comece por passar pelo Museu de Arte Moderna de Istambul e termine o dia como eu, na Avenida Istiklâl. A antiga Grand Rue de Pera rejuvenesceu desde a altura em que foi convertida numa zona comercial de peões. Se quer ser visto, é ali que deve ir. Se deseja apenas divertir-se ou manter-se na moda, também. Os prédios foram recuperados e as marcas internacionais fundem-se com as locais numa atmosfera alegre e cosmopolita, onde nem sequer falta um velho elétrico que a percorre de cima até abaixo. Mesmo no fim, encontra-se a mítica praça Taksim. É um ponto de encontro por excelência e também o local onde milhares de habitantes se concentraram no último verão para demonstrarem apoio ao presidente Erdoğan na sequência da tentativa falhada de golpe de Estado que ocorreu.
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O quarto dia da minha viagem foi dedicado a um contacto mais aprofundado com a população local e a religião muçulmana. Iniciei-o, fazendo uma breve caminhada até à Mesquita Süleymaniye, um dos ex-líbris da cidade.
Implantado sobre uma colina, o que o torna visível de quase todos os pontos de Istambul, este templo proporciona vistas magníficas sobre o Corno Dourado. Uma característica que honra bem o cognome do sultão que a mandou construir — Solimão. É ali, no cemitério existente bem ao lado, que tanto ele como Roxelana, a concubina que tomou como esposa, se encontram sepultados.

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Esta mesquita é muito menos turística do que a Azul. Aqui, podem ser vistos homens a realizar a ablução ou a rezar. E tudo neste local sagrado respira autenticidade e harmonia. São exemplos o pátio interior, a forma inteligente como a sala de culto foi erigida (os pilares estão embutidos dentro das paredes e o diâmetro da cúpula é exatamente metade do valor da sua altura, o que lhe confere uma sensação de amplitude assinalável), ou até mesmo os jovens que simpaticamente se disponibilizam para nos explicar um pouco mais sobre o que é realmente o Islão. Finda a visita, estava na altura de terminar em grande. Só me faltava conhecer o Bazar das Especiarias.

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A explosão de cor é imediata assim que lá entramos e é apenas superada pelos odores que abundam no interior. Potes azuis, vermelhos e verdes que transbordavam de canela, salva, figos, nozes, alperces e outros frutos secos enchiam as bancas. E a confusão era ainda maior. Com a forma de L, este pequeno centro comercial construído com as receitas dos impostos cobrados às mercadorias que vinham do Egito (razão pela qual também é conhecido por Bazar Egípcio), pode tornar-se verdadeiramente claustrofóbico. Trata-se de um dos mais concorridos mercados locais. Por isso, enche com facilidade.

O quinto e último dia da minha viagem deixou um sentimento agridoce. Já tinha recolhido toda a pesquisa de que necessitava para escrever o meu novo romance e o voo era apenas de tarde, o que me deixou algum tempo para me despedir em condições da cidade. Istambul merece ser sentida em pleno, que nos deixemos vaguear através do seu coração, lado a lado com o cidadão comum e que a enche de vida.

Infelizmente, estava eu já de regresso ao hotel, onde iria esperar pelo
shuttle que havia contratado para me levar até ao aeroporto, e o meu telemóvel começou a tocar. Ocorrera um atentado na Avenida Istiklâl, a mesma que visitara há um dia e meio, e a notícia já tinha chegado a Portugal. Assim que entrei na carrinha, o condutor perguntou-me: «Já sabe da explosão?».

Murmurei algo impercetível, ao que acrescentei: «Estão todos muito calmos. Parece que não aconteceu nada». E não, de facto, a cidade fluía por mim, passando discretamente em frente dos meus olhos, imersa na sua própria normalidade.

«Sim, esse é o grande problema», respondeu ele, enquanto continuava a conduzir. #

Nuno Nepomuceno, Istambul, Turquia, 2016
Fotografias ©Nuno Nepomuceno

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