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Archives for Oct 2017 | Site oficial de Nuno Nepomuceno.

O que eu tenho andado a ler, v2.0.

Esta entrada é dedicada aos livros que tenho andado a ler desde março até hoje, dia 31 de outubro, o dia em que a estou a escrever. Não são muitos, mas aqueles para os quais tenho conseguido encontrar tempo. Os pequenos textos que dedico a cada um deles não passam disso mesmo e não devem ser encarados como críticas.


O Homem Ausente, Hjorth & Rosenfeldt, Suma de Letras

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Para quem o desconhece, este é o terceiro volume de uma série policial nórdica cujo protagonista é um ex-profiler que regressa ao ativo após um longo período afastado. As histórias são independentes e este tomo em particular foca-se na investigação que se segue à descoberta de um conjunto de corpos enterrados na neve.

Eu gostei do livro em geral. A série, que não me tinha convencido com o primeiro volume,
Segredos Obscuros, arrebatou-me com o segundo, O Discípulo. Aqui, senti que a história foi algo «esticada» e pouco interessante. Enquanto que no seu antecessor o enredo serviu para trabalhar as personagens e para criar empatia com elas (o que não é fácil com este protagonista, garanto-vos), neste livro julgo que isso não aconteceu. É quase como que se a certo ponto a investigação policial se tivesse tornado secundária e a história se focasse exclusivamente nas personagens. De qualquer modo, como aparentemente me dou melhor com os episódios pares, cá estou à espera do já anunciado quarto volume (A Menina Silenciosa).


A Viúva, Fiona Barton, Planeta

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Foi um dos êxitos comerciais do ano passado, mais um que nos foi vendido como semelhante à
Rapariga do Comboio ou Em Parte Incerta. A meu ver, são livros algo diferentes e este, em particular, acaba por perder com essa comparação (dos dois que cito, preferi sem dúvida Em Parte Incerta, que descobri ainda antes da aclamada adaptação cinematográfica de David Fincher). A Viúva é essencialmente um livro que se lê bem. O enredo é interessante. A pedofilia é, normalmente, uma aposta ganha. E a narrativa é bastante competente, mas não passa disso mesmo.


Santuário, The Loney, Andrew Michael Hurley, Bertrand

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É um lugar-comum dizer que não devemos julgar um livro pela capa, se bem que, neste caso, foi mesmo isso que me fez comprá-lo. A ideia de uma história escondida sobre a infância de um par de irmãos num lugar recôndito junto à costa tem o poder de nos mexer com a cabeça. E quando o design é atrativo como neste caso, ainda melhor.

Há um certo magnetismo inexplicável em
O Santuário que só reconheço nos grandes livros. As páginas vão passando de forma lenta, a história promete cada vez mais, mas nunca chega a avançar efetivamente, e damos por nós envolvidos. Depois, há o risco de não corresponder às expectativas, de não dar explicações suficientes para o imaginário criado. Julgo que este foi o problema deste livro. Há um trabalho notável do autor, que tem de ser enaltecido, ao ponto de quase nos dar a sensação de existir uma outra personagem na história para além das físicas. Falo da religião. Mas julgo que acaba por deixar demasiadas coisas à deriva. É certo que se trata de um livro em que grande parte do enredo acaba por ficar nas entrelinhas, mas considero que o final é apressado, confuso e pouco claro.


Os Desafios da Europa, Livros de Ontem

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Este livro é uma pequena coletânea de contos criada com o trabalho dos vencedores do Prémio Literário da Junta de Freguesia dos Olivais. Trata-se de uma obra da qual fui um apoiante, sobretudo por conhecer duas das escritoras que a integram, Márcia Balsas e Márcia Costa. Li apenas os contos destas duas autoras, os quais são muito diferentes, quer na forma narrativa a que recorreram, bem como na abordagem que escolheram fazer do tema. Mas recomendo-os vivamente. Vivemos numa sociedade difícil, com desafios complexos pela frente, e questões como a emigração ou os movimentos migratórios têm de fazer parte da discussão quotidiana, gostemos ou não nós de ouvir falar nisso. Portanto, deixo aqui o meu aplauso a estas duas jovens escritoras, bem como ao restante elenco que forma a coletânea, pela coragem demonstrada.


Areias Movediças, Arne Dahl, D Quixote

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Já se percebeu que eu tenho um fraquinho por capas bonitas, não é? Pois, aqui está mais um caso. Começo por fazer festinhas ao livro e depois levo-o à caixa e trago-o comigo para casa.

Brincadeiras à parte, fiquei algo desapontado com este livro. Talvez tenha pegado nele no pior momento possível (li-o durante os meses do verão, uma altura em que me encontrava bastante cansado por causa da redação do meu próprio livro), ou pura e simplesmente já tenha tido a minha dose de autores nórdicos. A história é um pouco diferente do tradicional romance policial sueco, tendo até alguns contornos de espionagem, o que foi agradável. Mas a verdade é que achei que as duas personagens principais não tinham assim tanta química quanto seria desejável e que os «saltos» no enredo tornaram o livro algo confuso.


O Homem Que Perseguia a Sua Sombra, David Lagercrantz, D. Quixote

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Mais uma série policial nórdica, desta feita bastante famosa, se bem que agora pela mão de um outro escritor, na sequência da morte de Stieg Larsson, o autor dos três primeiros livros.

A comparação entre os dois é inevitável, embora algo dispensável. David Lagercrantz já escrevia antes de ter pegado na série Millennium e não imitou o estilo de Larsson. Pediu-lhes as personagens «emprestadas» e escreveu a sua própria trilogia com elas (julgo que a série terminará com o sexto e último volume). Não considero que este livro evidencie o mesmo brilhantismo do 2º volume de Larsson, por exemplo, mas, como escrevi antes, não devemos comparar as duas séries. Este volume, em particular, é um bom policial, sobretudo na segunda metade. O desenvolvimento que Lagercrantz deu ao arco narrativo dos gémeos monozigóticos está muito bem estruturado e conseguiu criar alguma empatia comigo. É para ler a série toda até ao fim!

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Discurso direto.

Transcrição da entrevista concedida em direto via Skype a Diogo Coutinho, No Conforto dos Livros.

«
As pessoas vão ver um Nuno ainda mais negro no novo livro, um ponto ao qual sempre quis chegar e que vou dar a conhecer finalmente. Acho que vão ficar surpreendidas ou até mesmo chocadas com o conteúdo.»

  • 1. Eu gostaria de começar com a “pergunta da praxe”, ou seja, existe algum livro ou autor que considere especialmente inspirador, ou que o tenha ajudado na escrita?

O meu preferido é “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas (eu tenho um estilo bastante diferente dele). Mas há alguns autores que são, obviamente, uma referência para mim e que, de alguma forma, acabaram por despertar em mim um maior desejo de escrever. É o caso de Daniel Silva (muitas pessoas fazem essa comparação, atualmente). Não escondo que gosto de ler os livros do Daniel, mas também acho que tenho uma voz própria. Acabamos sempre por ser influenciados por diversos autores e por tudo aquilo que se passa à nossa volta, ao que assistimos e ouvimos; é impossível ser completamente original. Também tenho algumas umas referências em Portugal, sobretudo pelas carreiras que têm desenvolvido e pela forma como as têm gerido. É o caso de José Rodrigues dos Santos e do próprio Luís Miguel Rocha (que, infelizmente, já faleceu). São todos bons exemplos a seguir e que devem ser respeitados, quer se goste ou não do seu estilo.
 
  • 2. Pegando então em inícios, passaria ao “Espião Português”, o seu primeiro livro publicado. Porquê a espionagem para começar uma carreira como autor?

Era o género em que me sentia mais confortável por duas razões. Em primeiro lugar, sempre gostei de ler e ver filmes e séries sobre espionagem. Não tenho qualquer formação na área, mas quando comecei a escrever o primeiro livro, era nesse género que me sentia capaz de fazer um melhor trabalho. Por outro lado, achei que em termos de mercado seria uma escolha ousada e até inteligente. Um autor a escrever sobre espionagem em Portugal seria algo diferente do panorama atual, e acho que tenho conquistado algum público por isso mesmo. Os autores de policiais são poucos por cá. E de espionagem e ação, como é o caso de “O Espião Português”, não consigo citar um outro nome. Foi uma estratégia que segui, ainda que entretanto tenha evoluído na minha carreira. Não tenho abordado exclusivamente espionagem e ação, mas estas são referências que vêm comigo e que acabam por moldar aquilo que sou enquanto escritor.
 
  • 3. Quanto ao seu último livro, “A Célula Adormecida”, como surgiu a ideia? Foi algum momento específico da sua vida?

Não precisamente. Foi uma ideia que foi sendo amadurecida com a editora com a qual trabalhava na altura. Quando entreguei “A Hora Solene”, tivemos uma pequena reunião na qual discutimos qual seria o próximo livro. Colocámos algumas opções em cima da mesa e a ideia dada pelo editor foi a de escrever um thriller sobre tensões sociais. Isto aconteceu em setembro de 2015, uma altura em que começaram a surgir imensas notícias sobre o êxodo de refugiados e a tragédia que ocorria nos mares da Grécia e Itália, acontecimentos que provocaram diversas diversas tensões sociais nos países de acolhimento. O livro não versa muito sobre o tema, mas aborda temas como a xenofobia, o racismo e o crescimento dos partidos de extrema direita. São assuntos que se encontram relacionados com as tensões sociais, embora o narrativa do livro seja maioritariamente dedicada ao terrorismo.
 
  • 4. Permanecendo na “Célula”, e visto que, durante a leitura do livro, reparei (e seria impossível não o fazer) que revelou profundos conhecimentos sobre a cultura islâmica, as células terroristas, os refugiados, etc, como se desenvolveu este período de pesquisa?

Existiram duas pessoas que me ajudaram na pesquisa. Quanto à cultura islâmica, dirige-me à Mesquita Central de Lisboa, travando conhecimento com o sheik David Munir, um dos dois imãs. Falei com o sheik por várias vezes e estive presente em alguns dos dias de congregação, às sextas feiras. Também me familiarizei muito com o espaço e fui tendo algum contacto com a cultura. Paralelamente, fiz uma pesquisa sobre certos aspetos da religião em si. Utilizei livros, artigos de imprensa e li excertos do Alcorão. Portanto, foi um processo bastante longo que começou em novembro e que foi sendo complementado ao longo do processo de escrita do livro. E até a revisão contou com a ajuda do sheikh Munir. A nível das células terroristas, tive a ajuda de um contacto que trabalha nos Serviços Secretos Portugueses e que não estou autorizado a identificar. Também efetuei uma pesquisa semelhante para o livro que foi anunciado para o ano.
 
5. O que considera ser autor em Portugal? Talvez algo mais inglório do que em outros países?

Considero que ser autor em Portugal é exatamente o mesmo que em qualquer outro país pequeno. As pessoas comparam-nos muito com o Reino Unido ou com os Estados Unidos da América, onde um livro que vende pouco é um bestseller em Portugal, se compararmos os números. Mas nós não devemos fazê-lo. São mercados com fundamentos completamente diferentes, começando logo pelo número de leitores e pelas suas condições económicas. As pessoas têm reservas em investir num livro, porque o utilizam durante um determinado número de semanas e depois este fica arrumado na estante. É claro que aqui enfrentamos dificuldades, mas isso também acontece, por exemplo, com um autor na Hungria, Itália, Grécia, etc. E se pensarmos nos escritores africanos, eles estão muito pior do que nós, daí que autores angolanos e moçambicanos se socorram do mercado português para singrarem. Se compararmos com os mercados americano, inglês e espanhol, ficaremos sempre a perder. É difícil ser autor em Portugal, mas não é impossível. E temos autores portugueses que vendem tanto ou mais do que autores estrangeiros. Alguns deles competem diretamente com Dan Brown no top nacional. Portanto, sim, é difícil, mas não impossível.
 
  • 6. Sempre ouvimos dizer que um bom escritor tem de ser, antes de mais, um bom leitor. Tem alguma espécie de disciplina; “regras” para ler e escrever?

O meu processo de escrita tem-se alterado bastante ao longo dos últimos anos. Os primeiros dois livros foram escritos sob a forma de fragmentos. A partir de “A Hora Solene”, tentei reservar uma parte do meu ano (no caso de “A Célula Adormecida”, foram quatro meses) para me dedicar mais à escrita (não exclusivamente, já que tenho outra carreira), mas procuro canalizar todo o meu tempo livre para a escrita. Nesse tempo, tento ter, pelo menos, duas a três horas disponíveis. Não sou capaz de pegar num computador e iniciar um capítulo sem antes preparar algumas ideias, esquematizar. De resto, vou tentando condensar o processo e reservar uns meses para isso. Se tiver o dia livre, tentarei escrever de manhã e à tarde. Não costumo escrever à noite. Para mim, tem-se tornado cada vez mais importante ter ritmo de escrita; é muito bom e ajuda-nos a progredir no livro. É mais fácil entrar no universo do livro e nas personagens com uma redação continuada.
Como leitor, não tenho regras. Já li mais do que leio atualmente. Pelo facto de ter duas carreiras em paralelo, é difícil ler tanto quanto gostaria. Chego cansado ao fim do dia e com a vista fatigada. De qualquer das formas, neste momento, não estou a escrever, o que significa que ando a ler. E assim irei continuar nos próximos meses, ao mesmo tempo que preparamos o lançamento do meu novo livro, que poderá ocorrer em janeiro ou em março.
 
  • 7. Durante/no final da escrita do livro, costuma pedir conselhos a pessoas conhecidas, a alguém especializado até?

Não. Eu tomo todas as decisões sobre o livro e não revelo o conteúdo a ninguém. Cheguei a mostrar “A Espia do Oriente” a um familiar, mas atualmente já nem isso faço. O livro sai da minha mão diretamente para o editor. Depois, acaba por sofrer alterações com o processo de edição, no qual se encontra o meu novo livro neste momento. Será sempre sujeito a algumas modificações, mas espero que não sejam muitas.
 
8. Dos livros que escreveu, se tivesse de escolher um como seu "predileto", qual seria?
Todos eles são especiais para mim de uma forma ou de outra. “O Espião Português” foi o primeiro e é ainda aquele pelo qual sou mais conhecido. “A Espia do Oriente”, infelizmente, é o meu livro menos vendido, mas diria que é o que mais gosto. É o mais grosso da trilogia, o mais denso, o mais negro. “A Hora Solene” é especial porque foi o fim de um projeto de doze anos e por ser o mais equilibrado dos três. “A Célula Adormecida” trouxe-me algum reconhecimento, mas o meu preferido será o livro novo. Estou muito, muito satisfeito com ele. É um thriller psicológico que volta a ter uma grande componente religiosa e algumas ligações ao terrorismo e à espionagem. Estou orgulhoso. As pessoas vão ver um Nuno ainda mais negro, um ponto ao qual sempre quis chegar e que vou dar a conhecer finalmente. Acho que vão ficar surpreendidas ou até mesmo chocadas com o conteúdo do livro.
 
  • 9. A última questão é mesmo sobre o seu novo trabalho. De certa forma já foi respondida, mas, se quiser adiantar mais algum detalhe…

Não posso falar muito sobre ele por questões de marketing, visto que ainda é muito cedo. O objetivo é que chegue às livrarias a tempo das campanhas do dia do pai. O mais provável, e se não houver imprevistos, é o livro sair em janeiro. Bem… O que posso dizer sobre o livro para além do que já disse há pouco? Há uma novidade. O protagonista do livro é novamente o protagonista de “A Célula Adormecida”. O professor Catalão está. É algo que ainda não contei a ninguém; é a primeira vez que o estou a dizer. Não é uma continuação, contrariamente àquilo que se possa pensar. Não estou a fazer uma nova trilogia. Aliás, nem sequer decidi ainda se voltar ou não ao Afonso um dia. É apenas um livro cujo protagonista transita do anterior. Será um thriller psicológico muito denso e com alguns temas bastante polémicos pelo meio.

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Modelo por três dias.

O momento acerca do qual já me referi aqui algumas vezes, duas se não me encontro enganado, chegou. As minhas fotografias oficiais já estão algo desatualizadas. Quem me conhece sabe que ganhei imenso charme nos últimos anos (cof, cof), pelo que eu e a Agência das Letras resolvemos renovar um pouco a minha imagem.

Tal como dei conta nas minhas redes sociais, a primeira sessão fotográfica decorreu na passada terça-feira, dia 17. Durou cerca de uma hora, na qual utilizei quatro mudas de roupa e outros tantos cenários, todos em padrões neutros (fundo negro ou branco; sentado, de pé ou apoiado numa secretária). Confesso que me encontrava algo nervoso. Tenho-me sentido à vontade com as idas à televisão, mas a ideia de posar para uma câmara e ter de fazer uma expressão intimida-me. O grupo de trabalho foi, por isso, mantido bem pequeno — apenas eu, a Assunção, o João e o Rodrigo; a fotógrafa, o meu agente e um dos meus assessores de imprensa, respetivamente. E o resultado acabou por ser algo surpreendente. Não tinha reparado que andava tão moreno, ultimamente. O tempo que tenho passado na rua a passear o Kimi (pelo menos uma hora por dia, pois o senhor cachorro anda a ficar gorducho) tem compensado. Vamos ver se tanto lustre não partiu a câmara!

Brincadeiras à parte, a ideia é criar uma base de dados de fotografias oficiais. Daí que vão existir ainda mais duas sessões. A segunda será já esta segunda-feira, dia 23, e com novidades. Iremos deixar o estúdio e rumar a uma localização externa bem no coração de Lisboa onde os livros vão dominar. Caso a meteorologia o permita, o plano será também estender a sessão a um jardim. Vamos ver se S. Pedro nos dá uma pequena ajuda.

A ideia subjacente é criar uma base de dados com fotografias oficiais minhas de onde serão escolhidas algumas para usos diversos, como para colocar na badana do novo livro, enviar à imprensa ou apresentar na remodelação do meu site. É verdade, este cantinho já tem uma nova maquete e surgirá rejuvenescido em janeiro.

Ao bom estilo dos
thrillers, deixarei o melhor para o fim. A terceira e última sessão fotográfica está pensada apenas para dezembro numa outra localização acerca da qual nada irei revelar. Será muito específica/ dedicada ao livro e mais não digo. Me aguardem! Winking

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[Eu, à saída do estúdio onde decorreu a primeira sessão fotográfica. Como se vê, vim pior do que um peru inchado.]

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[Atualização 24/10/2017: Eu e Assunção Castello Branco, a fotógrafa da Lift, a ensaiarmos um grande plano com luz e sombra para promover o novo livro. Fotografia por Rodrigo Almeida Fernandes, Lift.]

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O meu labrador gosta de cotas. LOL!


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Soube desde o primeiro momento em que olhei para ele que iria ter em mãos um cachorro especial. Aliás, foi o próprio criador a quem o comprei que mo confirmou há cerca de um ano, o dia em que o trouxe para casa. Começou por apontar para a caixa de cartão que levara para o transportar.

— O que é que pensa que veio buscar, um gato? — perguntou o senhor.

— Ele não cabe aqui? — respondi, aturdido. Tinha a inocente ideia de que todos os labradores bebés eram frágeis, puros e inocentes como os do anúncio da
Scottex. Porque é que o meu haveria de ser diferente?

— O cão que tenho para si é um pouco mais velho do que o que me encomendou — explicou o homem, com seriedade.

— O que é que aconteceu ao meu?

Apesar de ainda não o ter visto, já me imaginava com o pequeno Kimi serenamente a dormir no meu colo ou a trotar disciplinado ao meu lado.

— As bolinhas não desceram — disse ele. — Por isso, dei-o a uma pessoa amiga, mas tenho aqui um outro cachorro com mais duas semanas que é muito asseado. É o cão ideal para si, vai ver!

Tive a certeza assim que o vi vir a correr, as patas de trás a atropelarem as da frente de forma atabalhoada e os dentes de leite a mordiscarem as botas do criador, que bem que me podia preparar para uma mão cheia de trabalhos. Estava um dia de sol e o pelo branco reluzia sob o céu azul. Curiosamente, vinha manchado com várias pintas castanhas. O senhor cachorro, o tal que era o ex-líbris do asseio, acabara de andar à bulha com o irmão, durante a qual rebolou por cima dos próprios excrementos.

Os dias e meses que se seguiram confirmaram-no categoricamente. O Kimi é, sem dúvida, um cachorro especial. Diria antes traquinas, desavergonhado e irremediavelmente teimoso. Quando eu tentei ensiná-lo a andar com trela aproveitou a oportunidade para sentar o rabo no chão e extorquir-me um sem fim de guloseimas que escondeu no meio dos arbustos (ou melhor, naquilo que em tempos foram os meus arbustos, pois a minha casa deixou de ter um jardim; é agora rodeada por um canil de luxo!). E acabou-se o sossego à noite. O senhor cachorro, que dorme no alpendre, tem o desplante de andar a espreitar pelas portas de sacada da sala, à minha procura, chegando a bater nos vidros com as patas ou o focinho até eu me levantar do sofá e ir brincar com ele.

Claro que estou a exagerar um pouco. Obviamente que desde o dia em que o fui buscar, que o Kimi aprendeu quem é que manda cá em casa. Pois, sim, é ele…

Mas isto de ter um cão com um charme irresistível e os olhos de um James Dean dos tempos modernos também tem as suas vantagens. Eu, que vivo no meu bairro há oito anos, nunca fui mais popular como agora. Passei de ser um autêntico eremita desconhecido para o rei da rua. Todos os meus vizinhos me conhecem como o dono do Kimi (não como o Nuno, repare-se) e o novo estatuto de celebridade de que gozo à custa do fofo do meu cão é tão peculiar, que já me perguntaram inclusivamente se me tinha mudado para aqui recentemente.

O ponto positivo é que passei a socializar mais. O passeio diário que dou com o Kimi serve para tudo um pouco, desde arejar a cabeça a colocar as tricas de vizinhos em dia. Mas claro que o senhor cachorro não poderia, ainda assim, deixar de fazer das suas. Num destes dias, estava eu calmamente a trocar umas palavras com um senhor que andava a passear um casal de
golden retrievers, quando dei pela cadela a esconder-se muito depressa atrás das pernas do dono, assustada. A Wendy, que tem quase 14 anos e caminha já com alguma dificuldade, estava a ser «cortejada» por um senhor labrador, que desavergonhadamente lhe «arrastara a asa». Não é que o meu cachorro gosta de cotas?

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A Célula Adormecida, por Margarida Veríssimo.

Opinião retirada de novagazeta.pt.

«Ler um livro é algo que me dá sempre muito prazer. Se o livro for bom, para além do prazer que me dá, ainda me transporta para o seu mundo como se eu própria fosse personagem, vivendo em tempo real as aventuras, desventuras, paixões, desilusões, frustrações, vitórias, medos e alegrias descritas. Mas se um livro for muito bom e lido na língua original em que foi escrito, então o prazer imenso funde-se com o orgulho. Foram estes sentimentos que o livro “A Célula Adormecida” de Nuno Nepomuceno me proporcionou.

O livro, muito atual, cativa-nos da primeira à última palavra. Com capítulos pequenos, apresenta-nos o enredo, a ação e a muita informação de forma serena, sem pressas, permitindo-nos ir absorvendo e assimilando todas as questões tratadas no decorrer da história, sem que com isso perca o ritmo da ação, que em crescente cadência no prende e nos estimula. Não sendo um livro ligeiro também não é massudo nem pesado. Tem tudo no sítio certo, na altura certa, na dose certa.

“A Célula Adormecida” fala de política, de religião, de traição, de ódio e de amor, com muito amor, com muita humanidade. Curiosamente não senti qualquer raiva ou ódio pelos personagens com personalidades mais irritantes ou executantes de atos condenáveis, tal o amor e compaixão que o autor lhes/nos transmite. E o livro é isso mesmo, uma lição de amor, apesar de o ódio ser um sentimento constante ao longo de toda a narrativa.

A par de ler o livro na sua língua original, o português, o que considero sempre uma mais-valia, outra caraterística que me fez sentir mais próxima e dentro do livro foi o facto da ação se dividir entre a cosmopolita Istambul e a minha amada e saudosa Lisboa, nos seus percursos pela cidade.

Sendo um livro de ficção, relata-nos factos e situações reais, o que torna toda a história muito mais emocionante e nos faz pensar profundamente na possibilidade da ficção se tornar realidade. Por outro lado, é uma obra que nos conduz à realidade de uma comunidade cada vez maior na/da nossa sociedade.

Esta obra fez-me recordar quando há mais de 25 anos fiz para a faculdade um trabalho de grupo sobre a Mesquita Central de Lisboa. De uma forma muito mais distante e ligeira, também nessa altura tivemos de perceber a cultura, a religião e a arquitetura islâmica para então compreender e caracterizar o edifício da mesquita. Mas o que recordo com mais carinho, o mesmo carinho que senti no livro, foi a simpatia e abertura com que fomos recebidos na mesquita. Apesar de sermos 1 rapaz e 3 raparigas de 20 anos, nunca senti qualquer pudor ou preconceito. O responsável que nos recebeu mostrou-se sempre muito prestável e até divertido, contando-nos histórias e curiosidades sobre o projeto e a construção da mesquita e permitiu-nos uma visita aos vários espaços do edifício, com exceção da sala de orações exclusivamente destinada a homens, onde apenas ao nosso colega rapaz foi permitido entrar… Como “castigo” pelo privilégio, por maioria (feminina) foi decidido que seria ele a apresentar oralmente essa parte do trabalho.

Por todas estas e muitas mais razões, que decerto encontrarão, “A Célula Adormecida” de Nuno Nepomuceno é um livro que recomendo vivamente.»


Margarida Veríssimo
novagazeta.pt

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